DEPOIMENTOS

JÚLIO BARBOSA DE AQUINO 

Passamos por várias fases nessa história do extrativismo na Amazônia. Veio o ciclo da borracha no início do século e depois veio outro, de 1945 até 1966, que foi o segundo ciclo da borracha. 

Em 1966, aconteceu a falência do Banco de Crédito da Borracha, e nesse momento todos os seringais entraram em falência. Sem seringalistas, os seringueiros passaram a viver por sua própria conta e risco. Foi aí que começou a surgir essa nossa sociedade dos Povos da Floresta. Foi esse o momento que vivi com Chico Mendes e as lideranças do Movimento dos Seringueiros.

A partir da década de 1970, os seringais quase todos deixaram de existir e passaram a ser substituídos por barracões, e estes, pelo marreteiro. Nesse tempo, deixou de existir a política da borracha no Brasil. O seringal já não tinha importância nenhuma para a economia brasileira. Passou a ser mais econômico comprar borracha de fora.

Com a falência dos seringais, foram abertas as portas da nossa região para a venda dos seringais a grandes proprietários de terras do Sul e do Sudeste do país. E os paulistas, que a gente chamava de paulistas, vieram.

Começamos a enfrentar o desafio que foi entender que os seringais tinham acabado e que o barracão e o armazém fecharam. Ficamos à mercê dos marreteiros comprando borracha a um preço bastante baixo. 

No início da década de 1970, os paulistas começaram a comprar os seringais na Amazônia. A questão dos seringais traz junto a abertura das estradas na Amazônia, como a BR-364. Havia um projeto político vinculado com o Calha Norte, para fazer todo um círculo de estradas. 

Esse tipo de ação despertou a curiosidade dos seringueiros do Acre. Foi o tempo dos grandes empates. O primeiro aconteceu no Acre em 1974 e o segundo aconteceu em 1975, ambos antes da criação do primeiro sindicato no estado.

Quando aconteceu o empate do quilômetro 45 da estrada de Boca do Acre, o maior da história do Estado [que mais repercutiu naquela época], o sindicato estava começando. Tinha o de Sena Madureira, o de Rio Branco e o de Brasiléia. O Sindicato de Xapuri estava sendo fundado.

Naquele momento, a região de Boca do Acre tinha um fazendeiro que formou um bando de pistoleiros muito bem armados. Eles tinham por missão expulsar todos os seringueiros da região e invadir, também, as terras dos indígenas Apurinã. Esse fato desembocou o primeiro empate, que contou com a participação de alguns índios e do cacique dos Apurinã.

Após a morte do Wilson Pinheiro, assassinado em 1980, os seringueiros resistiam contra a entrada dos fazendeiros na região. Chico Mendes estava em Xapuri nos aconselhando, organizando o sindicato e a luta geral dos seringueiros.

Em Xapuri a atividade de extração da borracha nunca deixou de existir. A partir de 1981 e 1982 o fazendeiro usava vários mecanismos para conseguir expulsar seringueiros da colocação: um deles era a proposta de acordo para indenizá-los.

 Caso os seringueiros não aceitassem a indenização, vinha a pressão por meio da pistolagem com queima de casas, morte de animais e expulsão com intimidação e, em alguns casos, até assassinatos.

Outro argumento que eles usavam, bem articulado inclusive donos de cartórios, era o argumento da assinatura: o convencimento de assinatura de papel em branco. O seringueiro, que não sabia ler, colocava sua digital numa folha de papel em branco, o fazendeiro juntamente com o oficial de justiça dizendo que eles estavam assinando um documento em que o fazendeiro se comprometia a não mexer mais com ele em sua colocação.

 O fazendeiro pegava aquela folha de papel assinada em branco, fazia uma declaração em nome do próprio seringueiro dizendo que abria mão da colocação dele pro fazendeiro e, com aquele documento, conseguia um mandado judicial e expulsava o seringueiro da colocação.

Chico começou a ver que era necessário implantar algumas escolas para que o seringueiro pudesse aprender a pelo menos assinar seu nome; nesse ponto entrou a Mary Allegretti. Ela veio para o Acre fazer a dissertação de mestrado e se juntou ao Movimento em Xapuri.  Chico e ela conseguiram pensar na implantação de um programa de educação para Xapuri, surgindo daí o Projeto Seringueiro e a Cartilha Poronga. Implantamos as primeiras escolas em 1982. Mary foi a primeira professora do Projeto Seringueiro, e a primeira professora que deu aula para as pessoas analfabetas do seringal.

Ainda não tínhamos relação com os movimentos indígenas. Foi a partir do Projeto Seringueiro e das discussões sobre escolas que abrimos o debate sobre a questão da reforma agrária. Empates eram feitos e, na maioria deles, éramos derrotados. Eles vinham com a polícia, com o poder do Estado, a justiça, e o fazendeiro conseguia mandado de segurança para garantir o desmatamento. A gente resistia e a luta continuava. 

Era necessário pensar num modelo novo de reforma agrária. Os assentamentos que existiam não estavam dando certo. Vários projetos de colonização estavam sendo implantados e o que se via era a pessoa receber uma parcela do INCRA, ir pra lá e – com menos de um ano – saía de lá morrendo de malária e sem assistência nenhuma. Era obrigada a vender, entregar aquela terra pro fazendeiro. Dessa forma também foram construídas muitas fazendas de gado na nossa região.

Essa discussão sobre a questão da reforma agrária foi o início de tudo. Até então, a ideia que se tinha da Amazônia e do Acre era de uma terra vazia e sem gente, com alguns poucos índios espalhados pela floresta. Mas além de índios, se pensava que não existia mais ninguém além do pessoal que morava na cidade. Por isso era importante ocupar a Amazônia.

 Mais uma vez, Chico percebeu a necessidade de mobilização, de ir à Brasília mostrar às autoridades que na Amazônia tinha muita gente trabalhadora, honesta, gente do bem: índio, seringueiro, caboclo, ribeirinho. Aconteceu então o I Encontro Nacional de Seringueiros, com apoio de muita gente no Amazonas, em Rondônia, no Acre, no Amapá. 

O Encontro trouxe à tona o pensamento de Reserva Extrativista [RESEx]. Chico tinha consciência de que era importante para os seringueiros ter voz dentro da Assembleia Nacional Constituinte. 

Ele fez parceria com Lula, que era Deputado Federal Constituinte por São Paulo, e com o Cacique Mário Juruna, constituinte pelo Rio de Janeiro: duas lideranças importantes para garantir avanços no capítulo da reforma agrária na Constituição de 1988.

A aproximação com os indígenas se dava através do Terri [Aquino] do [Antônio] Macedo e do Mauro Almeida, que aproximaram os caciques indígenas de Chico Mendes. O cacique Soeiro foi com Chico para Brasília. Esse cacique velhinho, pai do Siã Kaxinawá, foi uma figura importante nesse processo. 

Foi dele que ouvi, pela primeira vez, palavras sobre a necessidade de fazer uma aliança entre índios e seringueiros pela defesa do território. Foi assim que os Povos da Floresta se uniram. A Aliança dos Povos da Floresta começou assim: legitimada depois da morte do Chico Mendes e continua viva até hoje.

Com a retomada da Aliança em 2007, com a reestruturação da Aliança, novamente vamos dar um passo extremamente importante alavancando o debate sobre as mudanças climáticas, porque conquistamos as florestas e demarcamos os territórios. Cuidamos hoje de 120 milhões de hectares de floresta, que precisam ser preservadas. 

Convivi muito com Chico Mendes porque nasci numa colocação que ficava a meia hora de distância da colocação onde ele morava. Cresci com Chico Mendes e sei como ele se alfabetizou. Sou consciente de que o Chico tinha uma sabedoria que parecia vir do além. Uma coisa da qual me orgulho muito é que ele nos deixou recomendações que são princípios básicos de cada um de nós, que somos lideranças. 

Uma delas é a questão da responsabilidade, outra é o compromisso que você tem que ter com aquilo em que você acredita, e a terceira, é sempre pensar na união do grupo. O Chico tinha essa questão da disciplina, da responsabilidade, do compromisso, da lealdade. Ele tinha como princípios básicos sagrados, que alguém para ser liderança, deveria possuir esses princípios.

Quem conviveu com Chico, por mais que queira, às vezes, se desviar para outro caminho, só de lembrar daquela mensagem dele durante as assembleias do Sindicato, não consegue perder o rumo.

Todos temos consciência de que uma grande liderança precisa ser disciplinada, ter responsabilidade, compromisso, respeito, união com o grupo e, também, tem que ler muito para passar as informações aos companheiros. Essa é a grande mensagem que Chico deixou pra todos nós. É por isso que a Marina, a Júlia, o Raimundo Barros, o Gomercindo, o Jorge Viana e eu, todos somos pautados e enlaçados pelos ensinamentos de Chico Mendes.

No futuro precisamos ter nossos governantes saídos da base, do nosso meio. Mais uma vez digo que a Aliança dos Povos da Floresta e a Aliança Internacional dos Povos da Floresta vão desempenhar um papel fundamental no convencimento dos governantes e da sociedade civil de que é necessário investir em organismos de pesquisa e tecnologia para podermos identificar, contabilizar e tabular toda a riqueza que a floresta nos oferece em pé. 

Júlio Barbosa de Aquino – Depoimento gravado pela jornalista Zezé Weiss, na primavera de 2008, para o livro Vozes da Floresta.

ANTONIO MACEDO

“Construir uma política pública 
para o fortalecimento institucional das organizações que, 
na prática, fazem a proteção das nossas reservas 
e do nosso meio ambiente, é tarefa das grandes 
para a Aliança dos Povos da Floresta.”
Célia Regina das Neves 

Meu nome é Antonio Luiz Batista de Macedo e sou um lutador. Nasci na colocação Bagaceira, no Seringal Transvalle, no Rio Muru, no Município de Tarauacá. Cresci nas aldeias indígenas de Tarauacá. Em meados da década de 70, comecei a trabalhar com a questão indígena do Acre, primeiro como indigenista, depois como sertanista, e assim estou até hoje. 

Ouvia falar muito do Chico Mendes, mas pessoalmente só conheci o Chico em 1978. Eu trabalhava no Vale do Juruá e ele no Vale do Acre. Nesse mesmo ano de 78, criamos a Comissão Pró-Índio [CPI] do Acre, o Terri Aquino, a Concita Maia, a Dedé Maia e eu. Daí até 1983 nosso trabalho foi o de organizar o Movimento Indígena.

Em 1983, nós tentamos fazer a primeira assembleia indígena do Acre, mas só conseguimos reunir doze lideranças. Era uma trabalheira danada, porque as lideranças desconfiavam umas das outras, ainda por conta dos desentendimentos do passado, das guerras de pajelança, das corridas para fugir dos brancos. Existia uma resistência tanto dos índios contra os seringueiros quanto dos seringueiros com relação aos povos indígenas. 

Na segunda assembleia, em 1984, conseguimos reunir oitenta lideranças, e decidimos convidar o Chico Mendes e o Ailton Krenak para tentarmos encontrar um caminho de juntar as nossas lutas. Nós colocamos o seguinte: 

“Chico, os índios e os seringueiros são diferentes, sim, porque os índios são de uma sociedade tradicional e os seringueiros de uma sociedade secular, mas a diferença acaba aí, porque os índios e os seringueiros bebem das águas dos mesmos igarapés, comem os mesmo frutos silvestres e são explorados pelos mesmos patrões, são coagidos pelo mesmo sistema feudal que ainda funciona nos seringais.

Sabe, Chico, todo mundo luta por terra, todo mundo está brigando para preservar os seus espaços na floresta, todo mundo está lutando para proteger a mata que garante a nossa caça e o nosso peixe, todo mundo é seringueiro, é castanheiro. Do lado de cá estamos nós, desunidos, e do outro lado estão os exploradores que nós todos sabemos quem são”. 

O Chico concordou muito com essa conversa e veio para o nosso Encontro.O Ailton e o Osmarino [Amâncio] também vieram, e, dali de onde hoje está sediada a Secretaria de Educação, nós saímos em passeata e fomos dar no Palácio Rio Branco, para colocar as nossas propostas para quem quisesse ouvir. 

Essa união se concretizou com maior intensidade na região de Xapuri e no Alto Juruá, onde criamos a regional do Conselho Nacional dos Seringueiros (CNS) e a Aliança dos Povos da Floresta, que ainda hoje vive e tem sua força.

Nós só fizemos o que fizemos porque conseguimos estabelecer uma cadeia de amigos muito grande e muito importante. Um dia fui convidado para ir para o Rio de Janeiro entregar um prêmio para o Paul McCartney, e eu nem sabia de quem se tratava. 

Perguntei para a May Waddington porque esse tal de Paul tinha que ganhar prêmio em vez de um índio ou de um seringueiro. A May me disse: “Macedo, pelo amor de Deus, você não sabe quem é o Paul McCartney, você não sabe o que são os Beatles?” Aí é que eu fui aprender. 

Mas hoje, não, hoje conhecemos muito mais gente no mundo e em qualquer lugar sabemos defender o legado da luta do Chico Mendes, do Ivair Higino, do Wilson Pinheiro, de todas as lideranças indígenas e sindicais que foram assassinadas, e tenho a  certeza de que, onde estiverem, todas as nossas lideranças estão orgulhosas do que fizeram e do que continuamos fazendo em memória de cada uma delas.

Antonio Macedo – Depoimento gravado pela jornalista Zezé Weiss em setembro de 2008, para a 1ª edição do livro Vozes da Floresta.

CÁTIA SANTOS  

Atenção jovens do futuro!” Essa é uma frase muito marcante para mim, pois é um chamado de Chico Mendes para que nós, jovens, estejamos comprometidos em cuidar dos nossos territórios, da Amazônia, e ser a resistência. 

Desde criança, sempre ouvi com atenção as histórias contadas por meu pai, meu avô e pelos mais velhos da minha comunidade sobre os empates, a luta dos seringueiros, especialmente a história de Chico Mendes e como era a vida na época dos patrões, essas histórias me mostraram a importância da criação das reservas extrativistas. A coragem e a determinação que Chico sempre demonstrou frente aos desafios e ameaças continuam a ser uma fonte de inspiração para mim e certamente para as gerações futuras.

Como jovem nascida no lugar que leva o seu nome, tenho plena consciência de que devemos a existência dos nossos territórios extrativistas e a oportunidade de viver do nosso modo tradicional, à luta incansável de nossos antepassados e especialmente a Chico Mendes. Hoje, tenho o privilégio de viver em um território que nos permite sobreviver dos recursos da sociobiodiversidade, respeitando a natureza e valorizando a nossa cultura e identidade.

Chico se tornou um símbolo de resistência, dedicando sua vida à proteção da Amazônia e aos direitos dos povos da floresta. Embora eu não tenha tido a oportunidade de conhecê-lo pessoalmente, sua memória e legado continuam vivos em nossos corações e mentes. Sua luta e tudo o que ele representa jamais serão esquecidos, e é nossa responsabilidade, enquanto juventude, honrar sua memória e dar continuidade à sua luta, defendendo nossos territórios extrativistas, que, em minha opinião, é o seu principal legado. 

Continuaremos a honrar o seu legado, protegendo nossos territórios, pelos quais você lutou tanto em prol da criação, infelizmente, você não teve a oportunidade de vivenciar esse momento.

Seus ideais de justiça social, pela defesa dos povos da floresta e pela conservação da Amazônia, ecoam em nossos corações e nos fortalecem para continuar resistindo. E nós, jovens, estamos prontos para assumir seu legado e honrar a sua memória, a luta não é fácil, mas é necessária, não podemos desistir diante dos desafios. 

Cátia Santos – Depoimento enviado via e-mail para a jornalista Zezé Weiss, em outubro de 2023, para inserção na 3ª edição do livro Vozes da Floresta.

 

CHICO GINU

Nasci como Francisco Barbosa de Melo, em 1959, mas no Movimento todos me conhecem por Chico Ginu. Ainda menino, virei seringueiro e sindicalista com militância em Alto Tarauacá, no Acre. 

Em 1979, fui designado delegado sindical no Seringal Restauração, no rio Tejo, no município de Marechal Thaumaturgo, onde hoje está a Reserva Extrativista do Alto Juruá. 

Em 1989, tive a honra de participar do encontro de fundação da Aliança dos Povos da Floresta, em Rio Branco. Isso infelizmente aconteceu depois da morte do Chico Mendes.

Tivemos as primeiras notícias do Movimento Sindical em 1976, através da comunicação de rádio receptor de uma rádio que se chamava Terra dos Nawa, dos padres de Cruzeiro do Sul. Em 1979 fui um dos primeiros a fazer a filiação. Esse foi o momento dos maiores conflitos entre seringalistas e seringueiros. Sinto muito orgulho em dizer que fui um dos que encabeçaram a luta.

Em 1989, aconteceu simultaneamente em Rio Branco, o I Encontro da Aliança dos Povos da Floresta e o II Encontro do Conselho Nacional dos Seringueiros. Tivemos muita determinação para juntar os índios e seringueiros por uma única causa. 

O Chico Mendes tinha morrido e o Encontro acabou sendo um momento de compromisso e de resistência para mostrar ao Brasil e ao mundo que o Movimento não ia parar em virtude do assassinato. Pelo contrário: foi um acontecimento de fortalecimento da luta.

Fiquei no CNS até 2003, como parte da Diretoria. Depois, fui trabalhar com vinte associações e com três sindicatos aqui da região. Acompanhei o processo de criação de 3 Reservas Extrativistas: do Alto Juruá, do Alto Tarauacá e da do Riozinho da Liberdade.  

Nós lamentamos muito a morte do Chico Mendes e até hoje não nos conformamos com essa perda. Nos entristecemos por ele não estar vivo, aqui com a gente, para contribuir com tudo o que ele ainda tinha para oferecer.

Mas acho que a morte dele ajudou a amenizar a destruição das nossas florestas, e todos nós, líderes, temos o compromisso pelo resto de nossas vidas de também fazer a parte do Chico. 

Chico Ginú – Depoimento concedido à jornalista Zezé Weiss em setembro de 2008, para a 1ª edição do livro Vozes da Floresta.

DIONE TORQUATO 

Nasci na Floresta Nacional de Tefé, no Estado do Amazonas. Sou filho e neto de seringueiros. Desde pequeno ouvi falar do Chico Mendes e de sua luta contra a destruição da floresta amazônica.

Histórias de sua coragem e resistência para defender seu território sempre ecoaram em meus ouvidos.

Sempre sonhei em conhecer sua cidade e sua casa, até que, em 2016, tive a felicidade, tive a honra de viver esse sonho: visitar Xapuri e a casa de Chico Mendes – na companhia de sua filha Angela – que conheci em Belém do Pará, em 2013.

Chico, obrigado por ter lutado por nós. Obrigado por ter falado ao mundo sobre a importância de proteger a Amazônia e por dar voz aos nossos povos e territórios. Gostaria muito de ter tido a chance de conhecer você, para te dizer, pessoalmente, que a sua luta não foi em vão. 

Hoje, aos 36 anos de idade e com duas filhas adolescentes, tenho a cada dia mais certeza de que fiz o que tinha que ser feito ao dedicar minha vida para honrar sua história e a lutar pela continuidade de seu legado, que continua a inspirar muitas pessoas, especialmente nós, que ainda somos jovens.  

Você está presente em cada semente plantada, em cada árvore protegida e em cada atividade de promoção de uma cultura de conservação e respeito à natureza. Você nos ensinou a amar e a respeitar a Amazônia, a lutar por nossas terras e por nossa dignidade.

Passados todos esses anos e diante de tantos desafios, cabe a cada um e a cada uma de nós continuar com sua luta, pois entendemos que jamais haverá igualdade social enquanto houver opressão sobre nossos povos.

Sabemos que não haverá justiça e inclusão enquanto nossos territórios estiverem sob o poder do grande capital. Que não há como concretizar nossos sonhos enquanto nossa liberdade estiver limitada pela ausência do Estado com suas políticas públicas.

Essa compreensão que hoje temos do mundo é porque, lá atrás você, Chico, nos ensinou que outros mundos são possíveis quando lutamos por liberdade, igualdade e justiça socioambiental. Seu exemplo de coragem e amor pela vida jamais será esquecido. 
Viva Você, Chico Mendes!

Dione Torquato – Depoimento enviado via e-mail para a jornalista Zezé Weiss em outubro de 2023, para inserção na 3ª edição do livro Vozes da Floresta.

LEIDE AQUINO 

Sou Leide Aquino, de Xapuri. Ainda adolescente, comecei a minha militância nas Comunidades Eclesiais de Base da Igreja Católica, de onde segui direto para o Movimento dos Seringueiros aqui do Acre. Tive o privilégio de participar do início da discussão sobre as reservas extrativistas que, de fato, começou a partir da luta dos empates, a partir da metade dos anos 1970. 

Da resistência nos empates fui para o Sindicato de Trabalhadores Rurais de Xapuri, para trabalhar com as mulheres. Aí tive a minha primeira participação direta na gestão de um movimento. Sinto orgulho em dizer que o nosso Sindicato de Xapuri foi o primeiro no estado do Acre a organizar um Encontro Municipal de Mulheres Extrativistas [em maio de 1988], sendo que a maioria delas eram mulheres seringueiras.

Daí, fui para a coordenação regional do CNS aqui no Acre, onde tive a oportunidade de coordenar a discussão sobre como queríamos que fosse uma reserva extrativista. Na prática, já estava decidido que a Reserva Extrativista seria uma área enorme, respeitando as colocações e o uso dos recursos naturais renováveis da floresta pelos seringueiros, mas o que a gente ia fazer, como ia fazer, isso nem nós sabíamos.

Esse foi um tempo de muitas discussões sobre o extrativismo, sobre o meio ambiente, especialmente dentro da Contag, que até então praticamente desconhecia o nosso esforço aqui no Acre para conciliar a questão da agricultura e da produção familiar com a questão ambiental.

Nesse sentido, tivemos um papel muito importante. Lembro que a primeira vez em que participei dos encontros da Contag achava-me um peixe fora d’água, porque aquilo que os companheiros e companheiras estavam discutindo em Brasília e no restante do país não era o que a gente discutia na nossa região. 

Um dos nossos principais avanços é termos conseguido estabelecer que as especificidades da região amazônica, principalmente das suas comunidades, das suas populações tradicionais, requerem um tratamento diferenciado por parte dos governos, da iniciativa privada e das próprias entidades da sociedade civil organizada.

Essa bandeira fomos nós que levantamos, e essa é uma conquista que ninguém vai conseguir tirar da gente. Toda essa questão da luta pela terra, da demarcação das terras indígenas e da conquista das reservas extrativistas hoje é uma realidade nas nossas vidas.

Hoje a condição dos seringueiros, dos índios, das populações tradicionais está melhor, porque pelo menos temos esse diálogo com o Estado. Na época do Chico, o Poder Público mantinha uma distância tão grande que, para nós, ter ou não ter governo não fazia a menor diferença. 

Hoje, não temos uma única comunidade que não tenha algum tipo de escola, seja uma escola bonita, construída com grandes prédios, seja apenas uma sala de aula. Hoje estamos em todos os cantos -nos rios, nas aldeias, nas colocações, nas comunidades urbanas – em tudo que é lugar. Esse é o nosso jeito acreano de seguir honrando a memória e os ideais do Chico Mendes.

Leide Aquino – Depoimento concedido à jornalista Zezé Weiss, para o livro Vozes da Floresta, na primavera de 2008.

LETÍCIA MORAES

“É das histórias contadas e lidas 
que carrego o legado de Chico Mendes, 
e continuo a perpetuar o dizer do Chico de 
que “a defesa da floresta é pela humanidade.”

Meu nome é Letícia Santiago de Moraes, sou extrativista, moradora do Projeto de Assentamento Agroextrativista [PAE] Ilha São João I, comunidade Nossa Senhora da Boa Esperança, rio Pagão, no município de Curralinho, no Marajó, Pará. 

Sou uma jovem mulher, filha de Dulcimar Baratinha de Moraes e Miracelia Santiago de Moraes, duas importantes lideranças das populações extrativistas da comunidade Nossa Senhora da Boa Esperança.

Nasci e me criei nesta comunidade que chamo carinhosamente de minha comunidade de pertencimento: pelo sentimento de ser e pertencer ao território, aos rios, as florestas e à diversidade. Sou, neste processo, uma sementinha que, juntando com muitas outras sementinhas, luto pelo coletivo, por justiça social, ambiental e climática.

O território que moro representa para mim a esperança de viver e a floresta é uma herança guardada por meus ancestrais, que levo como base da minha (RE) existência. Minha trajetória de jovem mulher extrativista se conecta às histórias de grandes líderes e mártires da Amazônia, como Chico Mendes, líder seringueiro, herói do Brasil. Um revolucionário cujo ideal vive em todas as  gerações e contam histórias como a minha, em razão de que, a juventude da floresta possui uma identidade e ela é também extrativista!

Nós, as juventudes extrativistas, nascemos com a responsabilidade de guardar um legado de luta, luto, resistência, conquista e esperanças, e o território é a raiz deste nosso legado. Por isso, lutamos e reafirmamos a continuidade dessa luta dos Povos da Floresta. 

Não podemos nos esquecer de nossos desafios diários, já que nascemos em um ambiente em que permanecer em nossas casas com os nossos modos de vida é desafiador pela ausência de garantia de direitos.

Direitos esses aglutinadores à garantia do território, como a educação, a saúde, a produção, o saneamento, a comunicação, o esporte e lazer, e que essas políticas sejam construídas para nós e conosco, de acordo com nossas necessidades. 

Aqui reforço que a carta ao “Jovem do Futuro”, deixada por Chico Mendes, me motiva a continuar na defesa da construção de um mundo mais justo, para que um dia o legado “de dor, sofrimento e morte seja apenas uma lembrança,” como sonhou o grande líder seringueiro Chico Mendes.

Letícia Moraes – Depoimento concedido à jornalista Zezé Weiss em setembro de 2023, para inserção na 3ª edição do livro Vozes da Floresta.

RAIMUNDO MENDES DE BARROS

Meu nome é Raimundo Mendes de Barros, conhecido como Raimundão. Sou seringueiro de nascimento e posso dizer que sou umas das pessoas que tiveram o privilégio de conviver como amigo e companheiro de Chico Mendes.

Foi na luta, junto com Chico, que compreendi a dimensão de nosso sofrimento e que era a partir da coragem de tomar posição – nos juntando a outros companheiros – que a gente ia romper com a opressão, com a camisa de força. E foi justamente isso que a gente fez. Sem nunca ter ido à escola, foi por meio de Chico que aprendi muita coisa dessa luta. 

O Chico era um seringueiro informado e curioso. Com ele, conheci outras realidades não de vista própria, mas pelos meios de comunicação. Soube do que acontecia em Cuba, na União Soviética, na Nicarágua, em El Salvador. O Chico discutia tudo isso comigo e com a companheirada. O que acontecia por lá nos motivava a partir para a luta em defesa de nossa causa: construir a nossa cidadania, nos descobrir perante o Acre, o Brasil e o mundo.

A gente vinha sendo massacrado. Tínhamos passado pelos patrões da borracha, pelo isolamento dos benefícios do Estado, do município, da nação, e pela venda dos nossos produtos a preços que não compensavam nosso trabalho. 

Era um verdadeiro massacre o que acontecia com a gente, porque vivíamos como posseiros dentro das nossas colocações: enquanto tinha força de trabalhar, a gente tinha valor; e, quando não tinha mais, nos despediam e mandavam embora. Na época dos patrões da borracha a nossa vida foi assim.

Depois veio o latifúndio e só piorou. Nossa borracha não podia mais ser vendida por nós mesmos.

A gente tinha que entregar pros comboieiros que vinham buscar o nosso produto nas nossas colocações. Tínhamos que pegar o quase nada que a gente tinha, botar nas costas, botar os filhos e a mulher no Varadouro e ir embora para outro canto. Era sempre era a periferia das cidades: onde se juntava a miséria, a prostituição, a violência e a desagregação da família. O latifúndio nos trouxe isso.

Foi contra o latifúndio que aprendemos a lutar com muita energia, que construímos o que eu relato em parte com grande satisfação. Nos anos 1970, tivemos a colaboração da Igreja Católica por meio da Teologia da Libertação. Apesar da timidez que a gente tinha, ela nos motivou, nos orientou e nos deu alguns conhecimentos porque a repressão era muito forte. 

A Confederação dos Trabalhadores na Agricultura [Contag] veio de Brasília com o delegado João Maia e o advogado Pedro Marques, que juntos montaram o primeiro sindicato no município de Brasiléia, onde Chico Mendes iniciou sua militância junto com Wilson Pinheiro. O Wilson era um cidadão pacato, de pouca fala, mas muito firme, muito leal, muito responsável. Na morte do Wilson, a vinda do Lula ao Acre pela primeira vez nos deu grande força para expressar a nossa dor e a nossa voz em todo o País.

Chico Mendes fez uma trajetória original no Movimento Social. De seringueiro se tornou sindicalista e de sindicalista se tornou ambientalista, sem perder o que havia de peculiar em cada uma dessas posições. Sua liderança era uma síntese. Vivia com a simplicidade de um seringueiro. Era crítico com relação às condições econômicas e sociais dos trabalhadores no Brasil, inclusive quando propunha alternativas ao desmatamento da Amazônia. Chico acertou quando afirmou que ia ser morto, mas errou quando disse que sua morte seria inútil. Chico Mendes Vive.

Essa ideia de trazer o PT pra cá foi coisa de Chico. Ele foi a São Paulo, encontrou-se com o Lula e veio de lá com a determinação de construir o PT. Lembro o dia que o Chico chegou de São Paulo, chamou os companheiros e disse: “Trago novidade boa. Estive com o Lula. Ele e seus companheiros estão fundando um partido. E ele já tem até nome: vai ser o Partido dos Trabalhadores, o nosso PT. E nós é que vamos fazer o PT. É compromisso meu com o Lula.” Do jeito que o Chico apresentou essa ideia, o compromisso ficou sendo de nós todos, e nós nos apaixonamos por ela.

Em 1980, Chico voltou da fundação do PT, em São Paulo, como Delegado Nacional do Partido. Aqui, nossas reuniões eram feitas no Sindicato, local onde se falava sobre educação, renda, política, o Partido e sua criação. E o mais interessante é que quem era de outro partido não se sentia alijado e tinha todo o direito de discordar da gente. E foi justamente nesse momento que o Sindicato de Xapuri foi mais fortalecido. Na discussão, na resistência e na disposição que Chico demonstrava, os outros companheiros pegaram o exemplo dele e fortaleceram o Partido e os sindicatos nos outros municípios do Acre.

Contudo, tivemos muitas dificuldades para fundar o PT aqui. Nos anos 80 ser do PT era ser comunista e o pessoal tinha um medo danado de comunista. E tinha outro agravante que era a mentalidade de que seringueiro: por ser pobre, por não ter dinheiro, não podia fazer um partido político. E a gente ainda era marcado por fazer oposição aos fazendeiros. Nessa época o latifúndio era aliado do sistema e eles falavam que a gente era comunista, que comíamos crianças e que cultuávamos o demônio.

Mas a gente pensava que se a semente fosse jogada em terra boa, por mais mirrada que fosse, ela cresceria e um dia daria bons frutos. Foi o que aconteceu. O PT era essa sementinha marcada, mas como o terreno era forte e fértil, conseguiu crescer e atingir o tamanho de hoje. O PT é fruto e resultado da luta dos camponeses, dos operários e dos intelectuais que tinham com o que contribuir e o que ganhar com uma sociedade mais justa.

Quero falar também do meu primo e amigo Chico Mendes: um grande contador de causos que conseguia prender a atenção de todos sem que ninguém duvidasse do ocorrido. Esse dom ele herdou do pai: um cearense famoso na arte de contação de causos e que narrava estórias que davam enorme medo nas crianças. Inclusive o Chico quando era moleque, já com seus oito anos, mijou muito na rede, à noite, com medo de descer por conta dos causos que o pai contava. O Chico era bom amigo e um grande conselheiro. Era um pacificador dos conflitos diários. 

No tempo da invasão dos paulistas, tivemos uma grande luta para fazer com que nossos companheiros ainda nos seringais permanecessem, e – para os que já tinham saído para a cidade – pudessem retornar ao seu seringal, mesmo com a dificuldade de transportar seus pertences. Era importante que os companheiros retornassem e houve muito retorno. Foi um tempo de grandes dificuldades.

A gente não podia usar rádio para transmitir informações aos companheiros, porque a rádio era controlada pelas autoridades. Nossa luta era vista com maus olhos, como uma desobediência, uma indisciplina ao sistema da ditadura. O jeito era o uso do bilhete, mas como nem todo mundo sabia ler, às vezes a comunicação não acontecia.

Mesmo assim, fomos conquistando nossos espaços, e aqui me refiro à educação. Nós tivemos a lembrança, dentro de toda essa turbulência, de que – para facilitar nosso trabalho – era fundamental que a gente conseguisse um meio de ensinar nosso pessoal a ler e a escrever. Isso facilitaria a leitura de um bilhete, fazer um bilhete aos outros companheiros e ler alguma coisa importante.

Raimundo Mendes de Barros – Depoimento à jornalista Zezé Weiss para o livro Vozes da Floresta na primavera do ano de 2008.

RAIMUNDO MONTEIRO  

Nasci aqui no Seringal Cachoeira e quase toda a minha vida eu passei aqui no Cachoeira.  Junto com o Chico Mendes, ajudei a fundar o Sindicato dos Trabalhadores Rurais de Brasiléia, em 1975, e o de Xapuri, em 1977. Eu e o Chico começamos a lutar juntos desde que eu tinha 28 anos e ele 16. Nós começamos e seguimos juntos na luta até o dia do assassinato dele, 22 de dezembro de 1988.

No nosso Movimento a gente sofreu muito depois da morte do Chico, mas também tivemos muitos resultados. Aliás, uma coisa que foi muito boa foi que naquela época dos empates, quando o governo, que era muito irresponsável, apoiava os que queriam derrubar a floresta, nós lutamos, aqui, no Cachoeira, por 17 dias e, mesmo antes do Chico morrer, a gente já sabia que a gente ia ter a nossa reserva, que acabou saindo como assentamento extrativista, com 700 mil hectares.

Nós, aqui, ainda trabalhamos com uma medida de duas estradas por colocação, é de 120 a 150 árvores por estrada. E por enquanto aqui não existe nada plantado, é tudo da natureza mesmo. Mas nós estamos pensando em adensar, plantar um pouco mais de seringueiras e explorar outras coisas também. 

A mata aqui é bem fechada, e tem muita coisa dentro dela que a gente ainda pode explorar. Esse é um ponto que ainda falta avançar um pouco mais do sonho do Chico Mendes, ele queria explorar os produtos da floresta para não ter que derrubar as árvores. 

Raimundo Monteiro – Depoimento concedido à jornalista Zezé Weiss, em setembro de 2008, para o livro Vozes da Floresta.